Porto Alegre, 23 de Janeiro de 2018

Teresa de Ávila, mulher “eminentemente humana e toda de Deus”.

Teresa de Jesus figura na história como mulher de intensidades, determinação, inteligência, relações, criatividade, humor, afirma Lúcia Pedrosa de Pádua
Por: Márcia Junges e Thamiris Magalhães


Sem dúvida, Santa Teresa de Jesus inspira mulheres e homens, transforma vidas. Essa é uma das afirmações da teóloga Lúcia Pedrosa de Pádua, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para ela, sua influência “ultrapassa em muito os limites da Igreja. O interessante é que a recíproca também é verdadeira: quanto mais a mulher vai ocupando espaços na Igreja e na sociedade, mais Santa Teresa é admirada”. Pedrosa de Pádua frisa ainda que Teresa não exorta a servir à Igreja em abstrato, mas aos “homens e mulheres que a compõem, sempre sensível a tudo o que é humano”.
Segundo a teóloga, o empenho, quase insistência, de Santa Teresa consiste em que seus leitores estabeleçam uma amizade com o Jesus dos Evangelhos. “Este Jesus que viveu, morreu e ressuscitou – sua representação da Humanidade sagrada inclui esta totalidade de Cristo”, diz. E completa: “Sua experiência desemboca numa atividade apostólica que extrapola a dimensão pessoal e até mesmo eclesial. Seu olhar é amplo. Teresa faz parte daquele grupo de pessoas que trabalham criativamente até o fim da vida, e morre com planos por realizar”.
Lúcia Pedrosa de Pádua é doutora em Teologia Sistemático-pastoral pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio, com Bolsa Sanduíche (Capes) na Pontificia Universidad de Salamanca (Espanha) e estudos no Centro Internacional Teresiano-Sanjuanista (CITeS) de Ávila, Espanha. Realizou estudos de pós-doutorado em Teologia da Espiritualidade na Pontificia Università Gregoriana de Roma (Itália), em 2001. Tem mestrado em Teologia Sistemático-pastoral pela PUC-Rio. Graduação em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE. É ainda bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. É professora de Teologia na PUC-Rio, atuando nas áreas de Antropologia Teológica, Mística e Espiritualidade. Pedrosa de Pádua é também professora de Cristologia no Centro Loyola de Fé e Cultura, também da PUC-Rio. Coordena o Ataendi, Centro de Espiritualidade da Instituição Teresiana no Brasil e é membro da Comissão de Teólogas da América (Instituição Teresiana), e da Comissão Assessora Permanente do Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB.
Lúcia Pedrosa de Pádua estará à frente do minicurso O Mistério da Igreja, hoje. Uma leitura a partir de Teresa de Ávila, no dia 04-10-2012. O evento está marcado para as 14h30, dentro da programação do XIII Simpósio Internacional IHU Igreja, cultura e sociedade. A semântica do Mistério da Igreja no contexto das novas gramáticas da civilização tecnocientífica. A programação completa pode ser conferida em http://bit.ly/rx2xsL.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como podemos compreender o Mistério da Igreja, hoje, a partir de Teresa de Ávila?
Lúcia Pedrosa de Pádua – Primeiramente é preciso esclarecer que na obra teresiana não encontramos doutrinas ou mensagens sobre a Igreja ou para ela. Nisso Santa Teresa de Jesus  se distingue de místicas medievais como Santa Catarina de Sena , também Doutora da Igreja. O que encontramos na vida de Teresa de Jesus é um modo de viver a graça, em consonância com sua experiência mística, ou experiência do mistério de Deus. E, aí, a eclesialidade está totalmente presente, ela é o âmbito em que se move Teresa, entre alegrias e dores.
Diria que, a partir da experiência de Santa Teresa de Ávila, aparecem duas dimensões da Igreja: a dimensão mística e a dimensão profética, ambas intrinsecamente relacionadas.
Dimensão mística
A primeira dimensão, mística, nos coloca diante da consciência da gratuidade absoluta da origem eclesial. É Deus mesmo o mistério da Igreja, Deus com seu amor, perdão e benevolência manifestados em Jesus Cristo. Através de Cristo, Deus mesmo se faz presente na Igreja e pelo Espírito instaura um mundo de possibilidades de comunhão, comunicação e expansão de seu amor.
A mística teresiana nos coloca dentro da radicalidade do envolvimento de Deus com o seu povo. Ele enche de glória a realidade eclesial, manifestada na santidade dos cristãos ao acolher a benevolência divina. Mas – e este aspecto é ainda mais forte na experiência teresiana – o envolvimento de Deus chega a adquirir contornos dramáticos por causa da infidelidade e da rejeição prática da benevolência divina por parte dos próprios cristãos. Nesse sentido, a Igreja é também espaço da dor de Deus, de Getsâmane. Teresa sente intensamente esta dor, em misteriosa solidariedade com Cristo. Portanto, a Igreja é também espaço necessitado de luz e salvação, chamado à contínua conversão; é espaço de recomeço e perdão para ser fecundo e jovial.
Dimensão profética
Assim sendo, entramos naturalmente na segunda dimensão da Igreja, que pode ser iluminada pela experiência teresiana, ao mesmo tempo em que a ilumina: a dimensão profética. Abrem-se, aos olhos e ao coração de Teresa, “os grandes males da Igreja”, dos povos em guerra de religião, dos índios (realidade da América), das mulheres, dos cristãos que não acolhem, com a sua vida, a mensagem de Deus. Para responder a tais desafios, Teresa se empenha tanto com a qualidade da comunidade como com a missão significativa. Ambas estreitamente vinculadas. Podemos seguir esta dimensão apostólica teresiana, de forma especial, no livro das Fundações, em seu imenso Epistolário. Estas obras revelam como não há Igreja viva sem comunidades testemunhais e sem impulso missionário. Trata-se de um fluir, intrínseco à sua dinâmica interna. Nesse aspecto, não seria anacronismo afirmar que a Igreja “sinal” e “instrumento” de salvação, ressaltada na Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, é perfeitamente encontrada no sentido que Teresa dá à sua atividade fundadora e reformadora.
IHU On-Line – Que relações podem ser estabelecidas entre a trajetória espiritual dessa mística e a fé em tempos de globalização e tecnociência?
Lúcia Pedrosa de Pádua – Não podemos nos esquecer das diferenças entre o contexto de Santa Teresa e o nosso. Teresa é mulher inserida em um tempo histórico, em que a Igreja se confundia com a cristandade. Havia como uma “globalização” da mentalidade da cristandade; nesta, diferenças eram combatidas. Em suas orações, a Santa de Ávila incluía os reis, os prelados e bispos – Teresa vive e pensa dentro da cristandade. Está presente e participa das vicissitudes da cristandade e da Igreja. A Igreja é um reino que atravessa as mesmas vicissitudes de um reino profano. Peleja e luta.
Esta cristandade se rompia com a chamada “heresia” luterana e se fazia cada vez mais consciente de suas fronteiras. As guerras de religião criavam um contexto dramático. Além desta cisão, estavam os mouros, os habitantes das “Índias”, os judeus e judaizantes – habitantes de um mundo necessitado de graça. Apesar da abertura e alcance da experiência de Santa Teresa para o diálogo ecumênico e inter-religioso, algumas expressões teresianas poderiam até ferir nossa atual sensibilidade dialogal, defendida pela Igreja oficial apenas a partir do Concílio Vaticano II. Nesse ponto, Teresa paga tributo à mentalidade e às categorias de seu século.
Obras de Teresa com universalidade contemporânea
No entanto, Teresa fala significativamente aos nossos contemporâneos. Sinal disso são as edições ininterruptas de suas obras, em dezenas de idiomas. Elas trazem aquela universalidade sempre contemporânea, que leva leitores de hoje a lerem as Confissões, de Santo Agostinho, por exemplo. É que sua força não está nas armas da cristandade, mas na teologia e, sobretudo, na oração e na vida interior, experienciadas no seio de uma comunidade.
Teologia, a partir de Teresa de Ávila
Quanto à teologia, Teresa a entende como aquela realizada com qualidade, que aprofunda nos mistérios do Evangelho. Para ela, os “capitães” da Igreja são os bons teólogos e predicadores (Caminho 3, 2); sua missão é ser “luz da Igreja” (5 Moradas 1,7). Teresa rejeitava a religião de “devoções tolas” e cheia de temores. A mística teresiana vai ao núcleo do humano, que ela vê entrelaçado com Deus que, como o sol, o habita. Lembro aqui como a oração se une à ação audaz de modo inseparável, conferindo a este dinamismo interior a condição de “fé viva, forte”.
A teologia e as ciências
Nossa sociedade, globalizada e tecnocientífica, como todas as configurações culturais, necessita da luz da Palavra viva de Deus. Homens e mulheres dessa sociedade igualmente necessitam descobrir seu espaço interior, e a oração é porta privilegiada deste espaço. Nossos contemporâneos rejeitam cada vez mais uma globalização que anestesie a capacidade crítica e de compaixão, exacerbe diferenças incapazes de conviver entre si, aliene personalidades na superficialidade do consumo, esvazie a comunicação profunda, aprisione a interioridade a caprichos individuais e reduza a vida a um espetáculo. Ao contrário, nossa sociedade traz virtualidades, antes insuspeitadas, de conhecimento e comunicação; traz potencialidades para uma nova cidadania global, em que a terra seja respeitada como um organismo vivo. Mas a teologia deve estar atenta e preparada para o diálogo não temeroso (nem dominador) do Evangelho de Jesus Cristo com a cultura e as ciências, e a vida de oração deve buscar o essencial relacional. Nesses pontos, a mística teresiana ressoa na grande Tradição cristã como voz clarividente.
IHU On-Line – Por que Santa Teresa anima uma maior audácia evangelizadora? O que isso significa para a igreja de hoje?
Lúcia Pedrosa de Pádua – Ela anima uma maior audácia evangelizadora porque deu testemunho desta audácia, porque soube exortar a ela e porque motivou uma experiência de Deus que leva a uma “fé viva”, por isso sempre audaz, profética.
Começando pela última, a fé viva, em suas palavras uma “fé viva, forte” (Vida 25,12). A experiência de Deus a que Teresa anima é profundamente evangélica, trata-se de um Deus envolvido com a humanidade, o Deus de Jesus Cristo – Humanidade sagrada –, presente por seu Espírito.
Empenho de Santa Teresa
O empenho, quase insistência, de Santa Teresa consiste em que seus leitores estabeleçam uma amizade com o Jesus dos Evangelhos. Este Jesus que viveu, morreu e ressuscitou – sua representação da Humanidade sagrada inclui esta totalidade de Cristo. Este Jesus empenhado em minorar o sofrimento pessoal e gerado nas relações humanas; que valoriza as mulheres; solidário com os pobres e enfermos; este Jesus que repete “não tenhas medo” e que liberta a liberdade; que cura e fortalece; jardineiro empenhado na beleza do “jardim interior”; habitante do castelo interior como quem ama, ilumina, atrai, refaz e reenvia.
Oração, dinamismo de conversão positiva
O crucificado-ressuscitado se encontra “ao lado” da pessoa, como presença amiga e amada. Ele está como mestre também no interior da pessoa. Na relação com o Cristo sempre se fazem presentes o diálogo, o contraste e o envio da pessoa orante. É amizade forte; gera forte motivação. A “fé viva” leva a perceber-se sempre em relação de amizade e amor – nem moralista nem dominadora. E por isso a oração é dinamismo de conversão positiva (não dominadora), de potencialização, de reenvio. Ela leva a pessoa a também se envolver com a humanidade, como Ele o fez.
Assim sendo, Teresa exorta a viver e morrer por este serviço a Deus, que é serviço aos irmãos, é serviço à Igreja. Não se trata de uma missão exterior, uma tarefa. Trata-se de vida com sentido, e este sentido desinstala, fortalece a viver “mil vidas” e a morrer “mil mortes”. Para ela, a única forma de viver com sentido é se empenhando que o Deus de Jesus Cristo, a Humanidade sagrada, fosse conhecida, e isso de forma prática. Teresa não exorta a servir à Igreja em abstrato, mas aos homens e mulheres que a compõem, sempre sensível a tudo o que é humano.
Testemunho de Santa Teresa
Finalmente, o seu testemunho, argumento final que leva à audácia evangelizadora. A vida de Santa Teresa manifesta uma existência configurada teologalmente, com discernimento angustiante, ao longo de toda a sua vida, para conhecer o caminho evangélico. É bem estudada a sua relação com os teólogos, nas quais pretendia receber luz para saber se sua experiência se realizava “conforme as Sagradas Escrituras”. Sua experiência desemboca numa atividade apostólica que extrapola a dimensão pessoal e até mesmo eclesial. Seu olhar é amplo. Teresa faz parte daquele grupo de pessoas que trabalham criativamente até o fim da vida, e morre com planos por realizar.
A Igreja de hoje deve perceber que sua mensagem passa por sua capacidade de motivar a experiência de “fé viva, forte”, enraizada no Deus revelado nos Evangelhos, envolvido com a humanidade, amigo da liberdade e do amor. E o fará se for de fato capaz de testemunhar o seu discurso numa sociedade totalmente diferente da do século XVI espanhol. Como na parábola do semeador, a terra boa também dependerá da qualidade de quem cuida da semente.
IHU On-Line – Quais são os principais ensinamentos de Teresa de Ávila para homens e mulheres de fé no século XXI?
Lúcia Pedrosa de Pádua – Vejo muitos, mas destacarei três ensinamentos-questionamentos que Teresa pode nos fazer, hoje, relacionados com a questão da Igreja.
A “fé viva, forte”
Primeiramente, chamo a atenção para a “fé viva, forte”. Mulheres e homens do século XXI podem valorizar esta qualidade da fé, que Teresa de Ávila enaltece. A fé lança a pessoa no interior de uma aventura relacional, que libera de ilusória onipotência e alimenta humildade verdadeira. Fé que é experiência. É importante, hoje, não apenas saber-nos, mas experienciar-nos como seres em relação com tudo: com os demais, com o cosmos, com as outras gerações, com nossa própria interioridade. A fé é um grande dom que nos joga no interior da relação com Deus. Mas ela exige um voo, um abandono das margens conhecidas, para que nos deixemos transformar. E isso é estranho a homens e mulheres que, na modernidade, habituaram-se a dominar e a determinar. Assim, em vez de ser transformados, podemos cair no desejo estéril de dominar e determinar a ação divina.
Igreja em crise
Em segundo lugar, chamo a atenção para as especificidades da ação teresiana diante da Igreja em crise, pois esta pode ser luminosa para nossas ações eclesiais. Ela se determinou a fazer o pouco que podia (“ese poquito” – Caminho 1,2): criou um pequeno grupo; evocou o ideal evangélico: ser bons cristãos (“tendo o Senhor tantos inimigos e tão poucos amigos, toda a minha ânsia era, e ainda é, que ao menos estes fossem bons”, Caminho 1,2); fortaleceu a vida de oração como missão eclesial.
Vários questionamentos demandam desta ação mencionada. Teresa de Jesus fez o que pôde. Embora pouco, sentiu-se corresponsável, buscou cidadania eclesial de maneira criativa, sem clericalismos. É um questionamento à nossa fé, se é “viva, forte” ou periférica, clericalizada, tíbia. Teresa criou pequeno grupo – outro questionamento à ilusão das grandes multidões e à barganha da boa formação teológica pela superficialidade na formação, especialmente dos leigos e leigas na Igreja. Como exemplo, infelizmente, vemos como tantas vezes o povo de Deus se vê diante de repetições dos textos bíblicos, em muitas homilias, sem nenhuma conexão com suas vidas. O pequeno grupo afirma também que a fé possui sua necessária dimensão comunitária, receptora privilegiada do Espírito (“recebei o Espírito Santo”, Jo 20,22) – o individualismo e a superficialidade não podem ser vencedores. “Ser bom cristão” – o ideal evangélico vai ao cerne do novo ser, não ao legalismo nem ao ritualismo.
Vida de oração
Finalmente, vida de oração, compreendida como abertura ao Deus de Jesus Cristo, descoberta de nova imagem de Deus – trinitário, amor, próximo e envolvido com a humanidade e com o cosmos, propulsor de amor e liberdade. Oração inseparável da ação apostólica audaz (“Marta e Maria hão de andar sempre juntas”). Hoje a sede de oração é grande, é preciso discernir a oração do Reino para que a espiritualidade não seja destrutiva do humano.
Santa Teresa, vida e morte na Igreja de Cristo
Para finalizar, lembro uma das últimas frases de Santa Teresa, em seu leito de morte, recolhida por várias testemunhas: “Senhor, ao fim morro filha da Igreja”. É, no mínimo, instigante que, à hora da verdade – a última –, a grande mística não tenha se atado à segurança do próprio castelo interior. Ela manifesta sua alegria e agradecimento de morrer na Igreja de Jesus Cristo. Teresa sabe que sua própria história cristã está entrelaçada com a história de salvação do povo de Deus. Trata-se de uma explosão de consciência eclesial, embora sua trajetória eclesial tenha conhecido fortíssimos dissabores. Deixo este questionamento para cada um refletir sobre o significado de viver e morrer na Igreja de Cristo.
IHU On-Line – Em que aspectos o legado de Teresa de Ávila oferece suporte para se repensar o papel da mulher na Igreja e na sociedade?
Lúcia Pedrosa de Pádua – Como teresianista, vejo de forma cada vez mais clara a grandeza do Papa Paulo VI que, motivado pelo espírito do Concílio Vaticano II, declarou Santa Teresa Doutora da Igreja, em 1970, junto com Santa Catarina de Sena. Foram as primeiras mulheres doutoras. Uma mulher, simples, do povo de Deus é Doutora. Trata-se do reconhecimento da participação de uma mulher na transmissão e aprofundamento da mensagem do Evangelho e da doutrina teológica e espiritual da Igreja. Trata-se de uma mulher exercendo oficialmente o múnus de ensinar, de falar sobre Deus – e Deus em nossas vidas. Trata-se, sem dúvida, de uma inspiração para que as mulheres assumam como seu também o labor teológico-espiritual.
Não é o caso aqui de discorrer sobre os sofrimentos de Teresa na Igreja de seu tempo. Para se ter uma ideia, houve um momento em que sua ação reformadora, porque realizada em sua condição de mulher, encontrou-se em confronto evidente com a Igreja hierárquica: o Papa e o Concílio de Trento, o Geral e o Capítulo Geral da Ordem, e o Núncio Apostólico. E apenas menciono a Inquisição. No livro Santa Teresa: mística para o nosso tempo (Editora PUC-Rio e Reflexão, 2011), organizado por Mônica B. Campos e por mim, podem ser encontradas mais informações. A atitude teresiana conseguiu reunir firmeza, liberdade interior, habilidade e espírito de comunhão.
Mulher incômoda
Mas seguiu sempre como mulher incômoda. Sua experiência libertadora de Deus confundiu os poderosos. Ninguém melhor do que o Núncio Sega conseguiu condensar as dificuldades contra Teresa: “mulher inquieta e andarilha, desobediente e contumaz, que a título de devoção inventava más doutrinas, andando fora da clausura, contra a ordem do Concílio Tridentino e prelados, ensinando como mestra, contra o que o ensinou São Paulo, que mandou que mulheres não ensinassem”. É incrível como hoje admiramos precisamente estas características teresianas. Em contextos machistas, não é possível à mulher deixar de ser incômoda quando ela ultrapassa os limites do que é esperado.
Teresa de Jesus figura na história como mulher de intensidades, determinação, inteligência, relações, criatividade, humor – mulher “eminentemente humana e toda de Deus”, nas palavras do fundador da Instituição Teresiana, São Pedro Poveda. Sem dúvida, inspira mulheres e homens, transforma vidas. Sua influência ultrapassa em muito os limites da Igreja. O interessante é que a recíproca também é verdadeira: quanto mais a mulher vai ocupando espaços na Igreja e na sociedade, mais Santa Teresa é admirada.
IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?
Lúcia Pedrosa de Pádua – Encerro reafirmando a importância da experiência místico-profética de Santa Teresa. Esta é a fonte de toda permanência e atualidade de sua obra. É nesta perspectiva que devemos ver o mais transformador e consistente de sua personalidade e de sua doutrina. Aí está a chave para uma Igreja e uma sociedade novas.