Porto Alegre, 22 de Junho de 2018

Teresa d'Ávila, a modernidade de uma mística.


 
Entrevista com Julia Kristeva

"Eu encontrei Teresa – conta Julia Kristeva– a pedido de um editor: passei cerca de 10 anos com a monja espanhola extravagante, da qual eu recém-tinha ouvido falar, que se tornou para mim uma figura indispensável da cultura europeia. Fico feliz por ter encontrado, graças a ela, aquele impulso barroco que transformou o catolicismo medieval e abriu as portas para o humanismo do Iluminismo."

A reportagem é de Cristiana Dobner, publicada no caderno Donne, Chiesa, Mondo, do jornal L'Osservatore Romano, 02-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nota da IHU On-Line: Julia Kristeva, de origem búlgara naturalizada francesa, é uma estudiosa que atua entre linguística, psicanálise, filosofia e narrativa. Ensina semiologia na State University of New York e na Université Paris 7 – Denis Diderot. Entre os seus livros citamos Thérèse mon amour. Saite Thérèse d'Avila, Paris: Fayard, 2008, 749 pp. É presidente de honra do Conselho Nacional Handicap: sensibiliser, informer, former. Desde 2015, é Commandeur da Legião de Honra.

Eis a entrevista.
Como a senhora abordou a fé de Teresa?
Eu me projetei na escrita daquela mulher, que viveu e descreveu uma fé que é chamada de mística, em que ela celebra, assim, a sua união com Jesus: "A alma se desfaz de desejo e não sabe o que pedir, porque claramente lhe parece que o seu Deus está com ela" (Castelo Interior). "A dor da ferida foi tão grande que me provocou os mencionados lamentos e suspiros, mas o deleite que essa terrível dor me causou foi tão enorme que foi impossível me livrar dele e poder me satisfazer com algo menos do que Deus. Não é uma dor física, mas espiritual, embora o corpo também participe em não pouca medida dessa dor" (Vida). "Nós não somos anjos, mas temos um corpo" e "o Senhor como homem". E assim por diante.
Também a acompanhei na arte barroca que a aproxima ainda mais de nós, modernos, começando pelo êxtase deBernini, que faz vibrar aquele êxtase no mármore: liquefaz-se sob os meus olhos na igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma. Mas também a missa que Haydn lhe dedicou ou o quadro de Tiepolo, em Veneza. Como não sou uma pessoa religiosa, tentei me familiarizar com o seu modo de sentir e de pensar, ou seja, interpretá-la. Teresaconvida o mundo secularizado a reavaliar, incansavelmente e sem preconceitos, a necessidade de crer que subjaz ao desejo de saber.
E a sua extraordinária escrita?
Com efeito, através do recolhimento das leituras e do fervor das orações, mas também deixando-se permear por música, pintura e escultura, a escrita dessa mulher sem fronteiras nos oferece o seu corpo físico, erótico, bon vivant e anoréxico, histérico, epilético, que se faz verbo e se faz carne, que se faz e se desfaz em si fora de si, fluxos de imagens sem marcos, constantemente em busca do Outro e da palavra certa. Matriz aberta que palpita pelo amado sempre presente, sem nunca estar lá. Os êxtases de Teresa são, de repente e sem distinção, palavras, imagens e sensações físicas, espírito e carne, ou talvez, justamente, carne e espírito: "O corpo não deixar de participa um pouco, e não muito". Objeto e sujeito, perdida e reencontrada, dentro e fora, e vice-versa, Teresa é um fluido, um fluxo constante. A água será o seu elemento: "Sou tão amiga desse elemento, que o olhei com mais advertência do que a outras coisas"; e a metáfora fluida é o seu modo de pensar.
Trata-se de uma fulguração íntima ou do retorno ao tema evangélico do batismo? O estilo teresiano está intrinsecamente enraizado nas imagens, elas mesmas destinadas a transmitir aquelas visões que não são percebidas pela visão (ou ao menos não só pela visão), mas residem no corpo-e-espírito inteiro, no psique-soma. Tais "visões" podem ser obtidas primeiro e essencialmente pelo tato, pelo paladar e pela audição, para depois se chegar à visão. Se a água é o emblema da relação entre Teresa e o Ideal, entende-se porque o seu Castelo Interior não se eleva como uma fortaleza, mas se deixa organizar como um quebra-cabeça de moradas, habitações de muros permeáveis que o divino não domina, mas habita. Significa apenas que a transcendência segundo Teresa também se revela imanente: o Senhor não está além, mas nela! Isso lhe causa problemas previsíveis com a Inquisição.
Em última análise, mais do que naqueles êxtases, o enigma de Teresa está no relato que ela mesmo faz deles: os seus êxtases existem fora desses relatos? Ela está plenamente consciente disso: "Fazer esta ficção (hacer esta ficción) para dar a entender o que eu digo", escreve ela no Caminho de perfeição (28, 10). Ela nega ser uma teóloga e reivindica apenas – com modéstia ou com corajosa modernidade? – ser a autora de uma ficção ("A ficção, aquele elemento vital das ciências do espírito", diria Husserl mais tarde). Uma escritora.
Qual é o papel testemunhal de Teresa no humanismo de hoje?
A narradora do meu livro Thérèse mon amour, a psicanalista Sylvia Leclercq, que se assemelha a mim, conclui a sua coabitação com Teresa endereçando uma carta a Denis Diderot que, no seu tempo, fustigava os abusos da religião no seu célebre romance incompleto A religiosa.
Mas Diderot, ex-canônico e escritor-filósofo do Iluminismo, chora ao se reconhecer incapaz de terminar a sua história: porque, liberta dos abusos da vida monástica, a sua religiosa é jogada em uma vida sem sentido. Estou convencida de que a psicanálise freudiana, que interroga os mitos e a história das religiões, abrindo, ao mesmo tempo, as portas da vida interior dos seres modernos, é a via mestra para transvalorar, justamente, essa tradição que nos precede e com a qual cortamos as pontes.
 
Nós, as pessoas não religiosas. Mas também nós, as pessoas religiosas muitas vezes reduzidas a "elementos de religião".
A releitura que lhe devemos não deve ser apenas abstrata, uma vista de cima. Ela envolve a memória afetiva particular, a intimidade de cada um. O seminário de Lacan faz dela uma descobridora do "gozo feminino", de título sugestivo: Ainda. O gozo feminino seria, portanto, insaciável? Ainda e ainda...
Porque não se limita aos órgãos sexuais, mas inflama todos os sentidos e transporta o corpo no infinito do sentido, enquanto faz precipitar o próprio sentido no absurdo, sintomas e loucuras. Um gozo do qual Teresa é a melhor exploradora e que a exila de si mesma: perpétuo transporte ao Impossível, ao Inominável. Que, contudo, não deixa de convidá-la a falar, a pensar, corpo e alma, paixão da escrita.
Um testemunho extraordinário, se fosse necessário, do fato de que existe um humanismo cristão intenso e ainda mal compreendido, e que a cultura europeia deve reinterpretar continuamente, se quiser sobreviver ao pensamento-cálculo e refundar-se constantemente.
Por que a senhora abordou uma mulher do século XVI, que continuou conhecendo e estudando?
Espero tê-la convencido da modernidade dessa mística, assim como ela aparece na minha leitura. Mas talvez possa lhe esclarecer melhor a sedução que Teresa exerce sobre mim, recordando duas características da sua obra que eu prefiro. A primeira seria aquela santa ironia que beira o ateísmo. Em uma passagem pouco lembrada do Caminho de perfeição, Teresa aconselha as suas irmãs que joguem xadrez nos mosteiros, embora o jogo não fosse permitido pelo regulamento, para dar um "xeque-mate a esse Rei divino". Uma impertinência que ecoa a célebre fórmula de Mestre Eckhart: "Peço a Deus que me livre de Deus".
A segunda é formulada por Leibniz, que, em uma carta a Morell de 10 dezembro de 1696, escreve: "Quanto a Santa Teresa, o senhor tem razão em estimar as sua obras; nelas, encontrei aquele belo pensamento, segundo o qual a alma deve conceber as coisas como se não houvesse Deus e ela no mundo. O que leva até a uma importante reflexão em filosofia, que empreguei utilmente em uma das minhas hipóteses".
Teresa, inspiradora das mônadas leibnizianas que contêm o infinito? Teresa, precursora de cálculo infinitesimal? Qualquer que seja a modéstia do escrever, esse ato da linguagem amorosa é ainda hoje – e sempre será – uma experiência que não ignora esses êxtases. A carmelita não inventou a psicanálise, nem a escrita moderna, mas, cinco séculos antes de nós, esclareceu aquela estranha experiência que é o pensamento nas fronteiras do sentido e do sensível, corpo e alma juntos: os segredos da escrita. Teresa é nossa contemporânea.
A sua feminilidade hoje nos diz alguma coisa?
E se a feminilidade de Teresa fosse pós-moderna? Essa santa barroca é de uma sensualidade hiperbólica, mas também sublimada, sem precedentes e única entre as próprias místicas, levadas (mulheres e homens) mais ao sofrimento e ao puro abandono do que à plenitude dos sentidos. Mas Teresa também é "a mais viril das monjas" (Huysmans): ou seja, de uma bissexualidade psíquica – para retomar a terminologia freudiana – quase reivindicada, exigente.
Qual é o sentido de maternidade dessa santa que flui ao longo dos séculos?
A secularização é a única civilização desprovida de um discurso sobre a maternidade. Enquanto Teresa, nas suas orações, mas também na sua obra como refundadora do Carmelo, descrita detalhadamente nas suas Fundações, faz aparecer uma visão e uma prática da sua maternidade simbólica como "madre superiora". Por mais surpreendente que isso possa parecer, algumas das suas reflexões sobre isso podem iluminar – até hoje! – as progenitoras (as mulheres que portam os filhos no seu útero) quando se tornam mães: quando vivem a paixão e o desapego desse primeiro vínculo com o outro, que é o vínculo com a criança, e se tornam capazes de transmitir a ternura, a linguagem e o pensamento.
Teresa começa glorificando o sofrimento como caminho para Deus e também como caminho necessário da maternidade. Mas também tem o gênio de se separar do afeto mudo, seja ele dor ou alegria. E recomenda a "não gozar demais" (quer se trate de gozar de dor ou de gozar de prazer), mas de "fazer a vontade de Deus", que consiste em "considerar os outros sem se amarrar as mãos". Extraordinária essa indefectível dedicação aos outros, sustentada pela alteridade do Outro!
Portanto, isto poderia ser chamado de dependência materna: não se contentar em gozar em si e por si, mas considerar a existência de um Terceiro, para ter acesso à vontade de respeitar e sustentar os outros, e nunca desistir! Hannah Arendt havia diagnosticado, depois da Shoah, que o "mal radical" começa a partir do momento em que os humanos se tornam incapazes de "pensar do ponto de vista do outro". Pois bem, para Teresa, ser mãe seria, em suma, todo o contrário: a capacidade de pensar a partir da perspectiva do outro. Hoje, o frescor de Teresa permite redescobrir que existe um catolicismo complexo, incomum, que "fala" à intensidade da nossa necessidade de crer e do nosso desejo de saber. Para os quais estamos desprovidos de apoio.