Porto Alegre, 17 de Dezembro de 2018

A sabedoria do tempo


Teresa de Jesus

"Imaginava que poderia encontrar como educador um verdadeiro filósofo, que pudesse libertar um homem da insatisfação própria da época e lhe ensinasse novamente a ser, no pensamento e na vida, simples e sincero".
F. Nietzsche


Quando falamos de Teresa de Jesus, é preciso contextualiza-la em seu período histórico. Viveu entre a transição do feudalismo da Idade Média, onde a falta de conhecimento da natureza feminina causava medo na sociedade. A vida da mulher era marcada pela submissão, seu trabalho restringia-se aos cuidados da casa e a ela cabia uma única função: a de procriar. Na transição do feudalismo para o capitalismo, após muitas lutas, a mulher começou a conquistar seu espaço na sociedade. Teresa de Jesus viveu nesta época. Dentro do seu convento foi uma leitora assídua, mesmo que muitos livros lhe eram inacessíveis ou até mesmo proibidos. Sendo mulher, pra quem é fechado o mundo acadêmico, existe nela uma inesgotável sede de verdade, de conhecimento, de confronto com outros que enfrentam as mesmas questões, que as estudam de uma forma mais sistemática e aprofundada que ela.
Ao desejo de conhecimento está também a necessidade de comunicar o que está vivendo, isso a coloca no centro de uma verdadeira e concreta rede de relações. Pensa-se que são mais de 110 os destinatários de cartas constantemente escritas por ela. Se torna assim, um tanto impressionante e única, pois uma monja de clausura, de vida contemplativa entra em um profundo debate eclesial, teológico e espiritual do seu tempo.
Por ter vivido em uma fase da história da Igreja em que de um lado domina a insegurança e o medo, de outro é difundida uma necessidade de novas formas de ser igreja e que possa responder à procura espiritual do homem moderno, com sua objetividade, seu novo modo de estar no mundo, de conhecer a natureza e agir na história, Teresa torna-se protagonista de uma profunda reflexão sobre a vida religiosa e espiritual. É por sua vez, considerada um dos pilares daquele longo e complexo processo de discernimento e assimilação do espírito moderno e de sua evangelização. Através de uma mulher à qual quase todas as possibilidades estavam cerradas, Deus leva a frente o caminho da Igreja abrindo novas direções que não nascem de reforma moral ou princípios doutrinais, mas a partir de experiências guiadas pelo Espírito.
Com isso Teresa de Jesus nos ensina a superar o nosso tempo. Conforme o decreto Multiformis Sapientia Dei, Paulo VI, 1970, diz: “O centro de sua doutrina Espiritual é Cristo que revela o Pai, nos une a Ele e nos associa a si {...} A humanidade de Cristo assume intimamente o homem que nele inteiramente confia, no mistério de sua morte, ressurreição e vida gloriosa com o Pai. Por isso, a humanidade sacratíssima de Cristo compreende todo nosso bem e salvação”.
    Teresa não fala de um Cristo distante, mas vivo e próximo. O caminho para chegar até Ele que está no centro da alma (do Castelo) que descreve em sua obra Moradas é o caminho de estados de crescente autoconsciência do eu, que desde a dispersão e mediação do mundo externo, sobe à sua simplicidade originária e chega a participar da vida Daquele de quem provém.
    Sendo assim, o Cristo humano que está no centro da pessoa, nos convida a termos um olhar de humano diante das realidades atuais do mundo, assim como termos uma humanidade que se concretiza em palavras, gestos e obras. Perder o contato com o centro leva a um enfraquecimento da pessoa e de seus valores, o que a torna incapaz de encontrar em si a força de assumir sua realidade, pois é o Centro que revela, organiza e anima a pessoa e sua identidade.
Necessário se faz, portanto, viver o essencial, uma relação/encontro entre o Centro e eu, um processo me coloca em um caminho de luz, verdade e justiça.