Porto Alegre, 19 de Outubro de 2018

“Vida Religiosa Consagrada em processo de transformação – Vejam que estou fazendo uma coisa nova (Is43,19)”,

Por ocasião da reunião que acontece de 06 a 08 de agosto, na sede das Pontificias Obras Missionárias em Brasília para avaliar o triênio e preparar a 24ª Assembleia Geral Eletiva, o organizador do livro, o franciscano capuchinho, frei Luiz Carlos Suzin e alguns autores falaram sobre a obra.

“O livro constata que estamos passando por um processo intenso de transformação, há um modelo de vida religiosa que foi muito bem vivido mas que não corresponde mais às demandas, ao clamor da fé vivida em sociedade e há processo  novo em andamento na área missionária e nas formas novas de oração. Queremos reunir os diferentes insights desse processo de transformação”, disse o organizador, frei Susin.

De acordo com Susin, o livro é destinado, em primeiro lugar,  às lideranças da Vida Religiosa, pessoas que trabalham com retiros espirituais, que tem cargos de responsabilidade, que precisam ajudar outros religiosos a fazer caminho.

A obra foi pensada, enfatiza Susin, “para ajudar a se posicionar dentro do Ano da  Vida Consagrada e quer ser um marco com múltiplas visões e sugestões.

“Deus não inspira só um superior que tem que saber tudo. É muito pesado”, diz psicóloga

O tema do poder na Vida Consagrada é refletido no livro pela  psicóloga,  religiosa da Congregação das Irmãs de Jesus Ressusictado e membro da Equipe Interdisciplinar, Susana Rocca, com o tema “A circularidade e os diversos modos de exercer o poder. “Abordo o tema das relações de poder pensando a questão da circularidade, porque vimos que aquele modo mais vertical, autoritário que durante tantos anos regeu a Igreja e a Vida Consagrada, não cabe mais”.

Para a psicóloga é de fundamental importância “buscar outras formas mais participativas, na certeza de  que Deus não inspira só um superior que tem que saber tudo. Isso é muito pesado”.  Acrescentou, também, que às vezes as pessoas na Vida Consagrada quando terminam o tempo de serviço como autoridades, finalizam esgotadas, porque é muita pressão. “A circularidade, a ideia de todos terem voz, maior participação, ajuda a escutar verdadeiramente aqueles que não tem voz, que todos se sintam responsáveis. Esse protagonismo é a temática que nos desafia nas relações de poder”.

“Vejam que estou fazendo uma coisa nova. Ela está brotando e vocês não estão vendo?”

O livro tem como iluminação bíblica recolhida no livro do profeta Isaías “Vejam que estou fazendo uma coisa nova (Is 43,9)”.  O biblista e religioso da Congregação do Verbo Divino e membro da Equipe Interdisciplinar da CRB, padre Thomas Hughes, com um capítulo especial na obra sobre o referido tema intitulado “Vejam que eu estou fazendo um coisa nova. Ela está brotando e vocês não estão vendo?”, explicou a importância desta reflexão para o contexto no qual se encontra a Vida Consagrada.

“A palavra do profeta é proferida no período do Exílio, quando Isaías faz uma leitura diferenciada da realidade. Queremos que a leitura orante desta frase ajude a Vida Religiosa e a Igreja a ver que Deus não fracassa, que o projeto não para, mas renasce de uma outra maneira”, explicou.

Segundo padre Thomas a dificuldade em enxergar está no fato de entender coisa nova como coisa velha. "A coisa velha, disse, se deu num contexto que já passou. Coisa nova terá novos contornos, já está acontecendo mas à vezes estamos com cataratas nos olhos. Queremos ajudar a Vida Relgiosa a caminhar a partir desta mística do profeta Isaías no Exílio e na confiança que Deus já está trabalhando, mas que somos nós que não enxergamos”.

Hughes citou alguns elementos que podem favorecer esta cegueira e impedir os consagrados de enxergar a ‘coisa nova que está brotando’, como por exemplo, colocar a identidade naquilo que se faz. “A nossa identidade não está, em primeiro lugar, no que fazemos, mas na mística, na experiência radical de Jesus que nos leva a uma vida comunitária, que fecunda uma missão, que é flexível conforme a situação”, enfatizou.

O assessor acrescentou ainda, que, “se entendemos que coisa nova é voltar a ter noviciado cheio de jovens, (nem tantos jovens temos mais no Brasil ) e que as obras são permanentes, não notaremos a coisa nova que está brotando, como por exemplo: comunidades intercongregacionais, missões mais flexíveis, itinerância. Novos tempos, novas maneiras de viver a consagração”, concluiu.

 “A diversidade é divina e não devemos considerar uma cultura inferior ou superior a outra”, afirma padre Joachim Andrade

“A diversidade é divina”, lembra o padre Joachim Andrade, natural da Índia, religioso Xaveriano, e membro da Equipe Interdisciplinar. Ele explica o porquê,  ao fazer lembrar que algumas regiões específicas como florestas, litorais, desertos, terra fértil, as montanhas e todas essas regiões no planeta, tiveram as suas civilizações específicas e desenvolveram,  conforme a região, a sua vida.

Citou como exemplo o caso da alimentação: nordestino, mineiro, tem todos os sabores num prato só. No sul se serve um aperitivo, depois salada, em seguida carne. Porquê? Segundo ele, isso se dá, devido à região geográfica na qual o indivíduo se localiza. A Amazônia tem uma cultura mais relacionada ao espírito da natureza. Eles elabororam uma relação íntima para com as plantas. Se se volta  para o homens do deserto, percebe-se que é um povo que se desenvolveu e cresceu olhando para cima, sempre voltado para o Transcendente, porque à sua volta, no ambiente desértico, nada crescia. Daí a grande característica que sempre os marcou como povo nômade. “Quem nasceu nas montanhas vendo o sol aparecer e desaparecer elaborou a dimensão da divindade. Porque é assim? Recebemos o planeta assim. Precisamos de litoral, de montanha, do deserto, da floresta e da terra fértil para manter o equilíbrio da nossa casa comum” garantiu.

Essas diferenças são denominadas por Andrade como divinas. “É neste sentido que chamo a diversidade divina, na qual reconheço os valores. Nas nossas comunidades religiosas temos alguém da Amazônia, outro do litoral  do nordeste, sul, alguém do Espírito Santo, região das montanhas. Cada um trazendo a sua mentalidade. Não existe a dimensão de criticar e considerar uma cultura inferior  ou superior a outra”, advertiu.

Andrade está convicto de que essa diversidade deveria ser apreciada, porque a interculturalidade traz uma nova dimensão que é o reconhecimento dessa diferença geográfica que promove a diversidade cultural e étnica, inclusive a da cor. “Eu preciso da diversidade: do muçulmano, do induísta, do protestante, para que eu possa aprender e acrescentar algo na minha catolicidade. Nessa compreensão, devemos entender a interculturalidade no mundo atual, principalmente dentro da Vida Religiosa, para sermos testemunhas para o mundo”.

Vida Religiosa Consagrada feminina: “levante-se”; Ecologia: novos espaços para Vida Religiosa Consagrada; Profissionalização, especialização e missão congregacional, são alguns temas, entre tantos outros, que compôem o livro de 383 páginas, que pode ser encontrado nas lojas Paulinas.