Porto Alegre, 13 de Novembro de 2018

Do Livro Castelo Interior (1M 1, 1-3)

Estando eu hoje suplicando a Nosso Senhor que falasse por mim — já que eu não atinava com o que dizer nem sabia como começar a cumprir a obediência —, deparei com o que agora direi para começar com algum fundamento. Falo de considerar a nossa alma como um castelo todo de diamante ou de cristal muito claro onde há muitos aposentos, tal como no céu há muitas moradas. A bem da verdade, irmãs, não é outra coisa a alma do justo senão um paraíso onde Ele disse ter Suas delícias. Pois não achais que assim será o aposento onde um Rei tão poderoso, tão sábio, tão puro, tão pleno de todos os bens se deleita?

Não encontro outra coisa com que comparar a grande formosura de uma alma e a sua grande capacidade. De fato, a nossa inteligência — por aguda que seja — mal chega a compreendê-la, assim como não pode chegar a compreender a Deus; pois Ele mesmo disse que nos criou à Sua imagem e semelhança.

Se assim é — e não há dúvida disso —, não há razão para nos cansar buscando compreender a formosura deste castelo. Pois, ainda que entre ele e Deus exista a diferença que há entre Criador e criatura — já que esse castelo é criatura —, basta que Sua Majestade diga que o fez à Sua imagem para que possamos entender a grande dignidade e formosura da alma.

Não é pequena lástima e confusão que, por nossa culpa, não nos entendamos a nós mesmos nem saibamos quem somos. Não seria grande ignorância, filhas minhas, que se perguntasse a uma pessoa quem é e ela não se conhecesse nem soubesse quem foi seu pai, sua mãe ou a terra em que nasceu?

Se isso seria grande insensatez, muito maior, sem comparação, é a nossa quando não procuramos saber quem somos e só nos detemos no corpo. Sabemos que a nossa alma existe apenas por alto, porque assim ouvimos dizer e porque assim nos diz a fé. Mas poucas vezes consideramos as riquezas existentes nessa alma, seu grande valor, quem nela habita; e, assim, não damos importância a conservar sua formosura. Todos os cuidados se consomem na grosseria do engaste ou muralha deste castelo, que são os nossos corpos.

Consideremos, portanto que esse castelo tem, como eu disse, muitas moradas, umas no alto, outras embaixo, outras dos lados. E, no centro, no meio de todas está a principal, onde se passam as coisas mais secretas entre Deus e a alma.

Deveis compreender bem esta comparação; talvez queira Deus que eu possa por meio dela dar-vos a entender alguma coisa das graças que Ele concede às almas e das diferenças que há entre elas, até onde eu tiver entendido ser possível — pois são tantas e tamanhas essas graças que ninguém seria capaz de conhecê-las a todas, muito menos eu, que sou tão ruim. Pois ser-vos-á de grande consolo, quando o Senhor vos conceder essas graças, saber que Ele o pode fazer; quanto àquelas a quem não forem elas concedidas, que louvem a Sua grande bondade.

Assim como não nos causa prejuízo considerar as coisas que há no céu e o que nele gozam os bem-aventurados, antes nos alegrando e nos estimulando a alcançar o que eles já fruem, tampouco nos prejudicará ver que é possível, ainda neste desterro, comunicar-se tão grande Deus com uns vermezinhos asquerosos como nós e amá-los com uma bondade tão plena e uma misericórdia tão sem limites.