Porto Alegre, 18 de Setembro de 2018

Do Livro da Vida (V 40, 4-6)

Ó Grandeza e Majestade minha! Que fazeis, Senhor meu todo-poderoso? Vede a quem concedeis tão soberanos favores! Não vos dais conta de que esta alma foi um abismo de mentiras, uma imensidão de vaidades, e tudo por minha culpa; e de que, apesar de me terdes dado uma natureza que abomina a mentira, eu mesma me obriguei a lidar com muitas coisas a partir da mentira? Como se tolera, Deus meu, como se permite que tão grande favor e graça possam ser dados a quem tão mal os tem merecido?

Estando uma vez nas Horas com todas as irmãs, a minha alma se recolheu de imediato e deu-me a impressão de ser um claro espelho. Não havia parte posterior, nem lados, nem alto, nem baixo que não fosse claridade; e, no centro, foi-me apresentado Cristo Nosso Senhor da maneira como costumo vê-Lo. Eu parecia vê-Lo em todas as partes da minha alma claro como um espelho; e esse espelho, não sei como, também era feito todo do próprio Senhor, através de uma comunicação muito amorosa que não sei descrever.

Sei que essa visão me traz grande proveito cada vez que me lembro dela, em particular quando acabo de comungar. Compreendi que, quando a alma está em pecado mortal, esse espelho se cobre de densa névoa e fica muito escuro; o Senhor não pode se refletir nele nem O podemos ver, embora Ele esteja sempre presente, dando-nos o ser.

No tocante aos hereges, é como se o espelho estivesse quebrado, o que é muito pior do que apenas obscurecido. É enorme a diferença entre ver e explicar essas coisas, pois não há palavras que bastem para tanto. Mas disso tenho obtido muitos benefícios, infundindo-me uma grande angústia ao pensar nas vezes em que, com minhas faltas, obscureci a minha alma de uma maneira que não me permitia ver esse Senhor.

Essa visão me parece benéfica para as pessoas que se dedicam ao recolhimento, ensinando-as a considerar o Senhor no mais íntimo de sua alma, pois essa consideração nos envolve mais e dá muito mais frutos do que se O considerarmos fora de nós, como eu já disse. Em alguns livros de oração, diz-se ser aí que se deve buscar a Deus; o glorioso Santo Agostinho, em especial, diz que nem nas praças, nem nos contentamentos, nem em todos os lugares onde O buscou O encontrou como dentro de si. Isso é com certeza o melhor, já que não é preciso ir ao céu, nem procurar mais longe nem fora de nós mesmos; fazer estas últimas coisas cansa o espírito e distrai a alma, e sem dar tantos frutos.