Porto Alegre, 11 de Dezembro de 2019

Imperfeições espirituais

Soberba espiritual

Desejo de falar sobre coisas espirituais diante de outros, e até às vezes de ensiná-las mais do que de aprendê-las, e condenam em seu coração outros quando não vêem seguir o estilo de devoção que eles quiseram. Nisto se parecem com o fariseu que se gabava louvando a Deus pelas obras que fazia e desprezando o publicano…E costumam chegar a tal ponto que  alguns, que não querem que ninguém pareça melhor do que eles. Por isso, quando lhes apresenta ocasião, condenam os outros e murmuram contra eles com obras e palavras, olhando a palha do olho de seu irmão e não vendo a trave no seu.(p.38).

Costumam fazer muitos propósitos e cumprem poucos. Algumas vezes têm desejos de que os outros conheçam seu espírito e sua devoção, e para isto às vezes fazem gestos externos, lançam suspiros e outras coisas raras.(p.39).

Tem vergonha de dizer seus pecados com clareza para que seus confessores não os estime menos, e dissimulam-nos para que não os achem tão maus. E isto é mais escusar-se do que acusar-se. Por isso, sempre gostam de dizer-lhe o que há de bom.(p.39).

Também alguns dão pouca importância a suas faltas. E outras vezes se entristecem demasiado por ver que caem nelas, achando que já deviam ser santos, e se aborrecem consigo mesmos com impaciência, o que constitui outra imperfeição.(p.40).

Não gostam de elogiar outros. Mas gostam muito de que os elogiem.(p.40).

Os imperfeitos quando quisessem ensinar-lhe algo e até quando parecesse que lhes ensinam eles mesmos tomam a palavra que sai da boca de quem lhes ensina para demonstrar que já sabem o que está dizendo.(p.41).

Humildade espiritual

Consideram todos melhores do que eles, e costumam ter deles santa inveja, com desejo de servir a Deus como eles servem. E, assim, quanto mais fazem tanto menos se satisfazem.

Vivem tão solícitos, preocupados e absorvidos nesta atenção de amor, que nunca se preocupam com saber se os outros fazem ou deixam de fazer. E se param para pensar, é sempre achando que todos os outros são muito melhores do que eles.(p.41).

Consideram todos melhores do que eles.(p.40).

Estes, com muita tranquilidade e humildade, têm desejo de serem ensinados por qualquer pessoa que lhes possa fazer bem.(p.41).

Não tem vontade de dizer suas coisas, porque as estimam tão pouco que até a seus mestres espirituais têm vergonha de dizê-las, parecendo-lhes que não vale a pena manifestá-las.(p.41).

Sentem maior desejo de dizer suas faltas e pecados, ou de que se saiba mais deles do que de suas virtudes.(p.41).

É por isso que se inclinam a abrir sua alma com quem menos estima suas coisas e seu espírito.(p.42).

Avareza Espiritual

Ficam muito desconsolados e queixosos porque não encontram o consolo que desejariam ter nas coisas espirituais. Muitos nunca se satisfazem de ouvir conselhos e aprender muitos mandamentos espirituais, e de ter e ler muitos livros que falem disso. E o tempo deles é empregado mais nisso do que em praticar a mortificação e a perfeição da pobreza interior de espírito que devem.

Enchem-se de imagens e rosários, as vezes muito originais e atraentes. Algumas vezes deixam uns e apanham outros; ora mudam, ora voltam a mudar apegando-se mais a esta cruz do que àquela por ser mais rara.(p.43)

Luxúria espiritual

Algumas vezes quando falam ou fazem coisas espirituais, surgem certo brio e galhardia, pensando nas pessoas que as olham e se deixam levar pela vaidade.

Alguns se afeiçoam a algumas pessoas em sentido espiritual, que muitas vezes nasce da luxúria e não do espírito. Conhece-se a desordem quando, com a lembrança de tal afeto, não crescem a lembrança e o amor de Deus, mas, sim, remorso de consciência porque se o amor humano cresce, notar-se-á que se vai esfriando o amor de Deus e esquecendo-se dele por causa daquela lembrança, o que provoca certo remorso.(p.48).

Por isso, disse Jesus: “Da carne nasce carne, do Espírito nasce espírito”(Jo 3, 6). Isto significa que o amor que nasce da sensualidade termina em sensualidade, e o que nasce do espírito termina em espírito e o faz crescer.(p.48).

Ira espiritual

Porque, quando acabam para eles o sabor e o gosto pelas coisas espirituais, naturalmente se sentem insípidos e, com a amargura que os domina, fazem coisas de mau humor e com facilidade se aborrecem com coisas insignificantes e às vezes se tornam insuportáveis.(p.50).

Outros espirituais incorrem em outra espécie de ira espiritual: irritam-se contra os vícios alheios com certo zelo impaciente, assinalando outros com o dedo. E, às vezes, sentem ímpetos de corrigi-los com rispidez e, algumas vezes, o fazem, como se fossem eles os donos da virtude. Tudo isso contraria a mansidão espiritual.(p.50).

Outros, quando se vêem imperfeitos, com impaciência e soberba irritam-se contra si mesmos. Sua impaciência os leva a querer ser santos em um dia.(p.50).

Muitos deles propõem muito e fazem grandes propósitos, e, como não são humildes nem desconfiam de si mesmos, quanto mais propósitos fazem tanto mais caem e tanto mais se aborrecem, sem terem paciência para esperar que Deus lhes dê o que desejam quando ele queira. Isto também contraria a mansidão espiritual. (p.51).

Gula espiritual

Atraídos pelo gosto que aí encontram, alguns se matam com penitências e outros se enfraquecem com jejuns, fazendo mais do que sua debilidade aguenta, sem ordem nem conselho alheio. Pelo contrário, até procurando ocultá-lo a quem nisto deviam obedecer.(p.52).

Vereis muitos deles discutindo com seus mestres espirituais para que lhes concedam o que querem, até que arrancam e conseguem o que querem por meio de pressão; do contrário, se não obtêm o que querem, entristecem-se como crianças e ficam de má vontade, achando que não servem a Deus quando não fazem o que querem…ficam tristes, perdem o fervor e relaxam.(p.51).

Não hesitam em discutir muito com seus confessores para que os deixe comungar muitas vezes; e o pior é que muitas vezes se atrevem a comungar sem licença e o parecer do ministro e dispensador dos mistérios de Cristo.(p.53).

Quando comungam, põem todo seu esforço em buscar algum sentimento e gosto, em vez de dedicar-se a adorar e louvar a Deus dentro de si mesmos.E tal apego têm aos sentimentos que, quando não conseguem alcançar nenhum gosto ou experiência sensível, acham que não fizeram nada.(p.54).

São como crianças, que não se movem nem agem pela razão, mas, sim, pelo gosto.(p.55).

Inveja espiritual

Costumam ter movimentos de pesar diante do bem espiritual dos outros…Entristecem-se com as virtudes alheias….quereriam ser preferidos em tudo…(p.56).

Preguiça espiritual

Costumam experimentar tédio e fugir das coisas que são mais espirituais, que são as que mais contradizem  o gosto sensível…se alguma vez não encontram  na oração a satisfação que seu gosto pedia, não querem voltar a ela, ou às vezes a deixam de todo, ou vão a ela com má vontade.(p.56).

Quereriam que Deus quisesse o que eles querem, e se entristecem de querer o que Deus quer, sentindo repugnância por amoldar sua vontade a de Deus. (p.57).

Também se entendiam quando lhes mandam o que não lhes dá gosto…São como os que criados no meio dos prazeres, que fogem da tristeza de toda coisa áspera e ficam agastados com a cruz, em que se acham os deleites do espírito.

 

São João da Cruz. Noite Escura lida hoje. Ballester. Paulus. 5.ed.2005.