Porto Alegre, 11 de Dezembro de 2019

Cautelas  

1. Contra o mundo

A primeira cautela é que a respeito de todas as pessoas tenhas igual amor e igual esquecimento, quer sejam parentes, quer não o sejam, desprendendo o coração tanto de uns como de outros;

Considera a todos como estranhos e desta maneira cumprirás melhor o teu dever para com eles do que pondo neles a afeição que deves a Deus. Não ames mais uma pessoa do que a outra, porque errarás.

Nada penses em relação a eles, nem bem, nem mal.

A segunda cautela contra o mundo se refere aos bens temporais. Não deves ter cuidado algum a esse respeito, nem de comida, nem de vestido etc.

A terceira cautela consiste em evitares com todo o cuidado o pensamento e mais ainda falar sobre o que se passa na comunidade; o que acontece ou aconteceu com qualquer religioso em particular; não te ocupes da sua maneira de ser, do seu trato, das suas coisas, por mais graves que sejam. Nem a pretexto de zelo, de remédio a dar, digas coisa alguma, a não ser a quem de direito convém dizê-lo a seu tempo. Não te escandalizes nem jamais te admires de coisas que vejas ou percebas, procurando guardar tua alma no esquecimento de tudo isso. Porque se quiseres reparar em alguma coisa, mesmo que vivas entre anjos, muitas coisas não te parecerão bem por não compreenderes a substância delas.

Sirva-te de exemplo a mulher de Ló, que por se ter perturbado com a perdição dos sodomitas e voltado a cabeça para observar o que se passava, a castigou o Senhor transformando-a em estátua de sal. É para que entendas que, ainda no caso de viveres entre demônios, Deus quer que vivas de tal modo no meio deles que não desvies a cabeça do pensamento às sua coisas, mas as deixe totalmente, procurando conservar a alma pura e inteira em Deus, sem que qualquer pensamento a respeito disso ou daquilo, te possa estorvar.

  1. Contra o demônio

Jamais te movas a coisa alguma, ainda que te pareça boa e cheia de caridade, quer para ti quer para qualquer outra pessoa, dentro e fora de casa, sem ordem de obediência…As ações do religioso não lhe pertencem, mas são da obediência e se dela as subtraíres, delas te pedirão contas, como se fossem perdidas.

Jamais considerares o prelado menos que Deus, seja ele quem for, pois constituído em seu lugar põe-te cuidadosamente de sobreaviso para não considerares a sua índole, o seu trato, a sua aparência porque com isso…virás mudar a obediência de divina em humana, movendo-te ou não, apenas pelos modos que puderes observar visivelmente no prelado, e não no Deus invisível, a quem nele serves.

A terceira cautela é que no íntimo do coração procures sempre humilhar-te em palavras e obras querendo que sejam preferidos a ti…

E sê sempre mais amigo de ser por todos ensinado do que de querer ensinar ao menor entre todos.

  1. Contra a carne

A primeira cautela é que compreendas que não vieste para o convento senão para que todos te instruam e exercitem.

A segunda cautela é que jamais deixes de fazer obras por não encontrar nelas gosto e prazer.

A terceira cautela seja que nunca o varão espiritual ponha os olhos no prazer dos exercícios para a eles se apegar, vindo a fazê-los só pelo gosto que lhe proporcionam.

 

São João da Cruz. Obras Completas. Editora Vozes.2002.