Porto Alegre, 15 de Novembro de 2019

Problemas em Toledo       

Aqueles que não aceitavam as Reformas, passaram a denominar os reformistas de “Rebeldes”. Esta divisão logo deu origem a certa intolerância, gerando constantes incidentes. O conflito entre os membros do antigo Carmelo e os da Reforma cresceu assustadoramente, ultrapassando limites e fronteiras e se enraizando de maneira apaixonada e cruel, nos corações mais endurecidos e renitentes. Um grupo de religiosos da antiga Ordem surgiu à noite do dia 3 de Dezembro de 1577, na pequena Casa da Encarnação (Mosteiro) e sequestraram João. Levaram-no por caminhos desconhecidos e às vezes com os olhos vendados, para o Convento de Toledo, a fim de ser julgado e castigado como “Rebelde”. Juridicamente tratava-se de um entre tantos outros fatos similares que aconteciam na vida religiosa e que estava previsto na legislação, como forma de castigo e punição para os infratores das Normas. Ninguém ficou sabendo do paradeiro dele, nem os irmãos e nem as autoridades civis. Trancaram-no num cubículo estreitíssimo, sem ar e nem luz. Ali passou um inverno e um verão, sofreu fome e sede, frio e calor, num ambiente sujo, com piolhos e sem trocar de roupa. Foi privado de todo consolo religioso e sacramental, recebendo castigos contínuos e também, a exigência de retratar-se publicamente, dizendo que abandonou a Reforma. E neste abominável castigo passou nove dolorosos meses.

Este tipo de castigo era denominado de “Cárcere Conventual”, no qual um religioso era designado “Carcereiro”, encarregado de vigiar, trazer a comida e acompanhar o preso, quando o mesmo tivesse que aparecer em público.

Consciente de todas as dificuldades que teria de enfrentar, colocou tudo nas mãos de DEUS, e dizia: “Estas coisas não são feitas pela força dos homens, mas pela permissão de DEUS, que sabe o que nos convém, o que é melhor para nós e as determina para o nosso bem”.

Com o castigo em pleno andamento, lá pelo mês de Maio ou Junho, mudaram o carcereiro, que passou a se mostrar mais benigno e amigável. Um dia, Padre João lhe pediu: ... “que lhe fizesse a caridade de lhe arranjar um pouco de papel e tinta, porque queria escrever algumas coisas devocionais para se entreter”. Foi-lhe trazido o que pediu. Então escreveu o poema do “Cântico Espiritual”, a “Fonte” e os “Romances”. Coisas devocionais e de entretenimento! Que palavras humildes e modestas! Na verdade, uma obra admirável, com o mais elevado lirismo espanhol!

Suportou heroicamente o castigo e nas oportunidades sempre afirmava: “que as graças que recebia compensavam com vantagem, os sofrimentos da prisão”. Portando-se com dignidade, em suas horas de solidão, escolheu o melhor momento para preparar a sua fuga, sem despertar qualquer suspeita. Não podia pedir auxílio e nem a ajuda de ninguém, pois estava totalmente incomunicável. Assim sendo, tinha que se decidir e agir por sua própria conta e risco. Esperou o momento certo. Numa noite entre os dias 16 e 18 de Maio de 1578, arrancou o ferrolho da porta e rasgou o próprio manto em muitas tiras, emendou-as e desceu por uma janela. Saltou o muro que separa o precipício do Rio Tejo, e fugiu para um local desconhecido. Fazendo perguntas aos transeuntes, chegou ao Convento das Carmelitas Descalças, que o esconderam durante algumas horas e depois, o encaminharam a um benfeitor da Comunidade Religiosa, onde ele permaneceu se restabelecendo e se preparando para viajar. Com a intervenção de Madre Teresa que tinha muita amizade com a Duquesa Alba, refugiou-se no Mosteiro de Jaén e se preparou a fim de poder continuar com sua missão.

Fonte: apostoladosagradoscoracoes.angelfire.com